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Psicologia: ciência do comportamento ou narrativa sofisticada sobre o sofrimento?

Quando afirmamos que a psicologia é uma ciência, precisamos sustentar essa afirmação para além da tradição, da autoridade dos grandes autores ou do conforto teórico das escolas às quais nos filiamos. A pergunta que proponho ao debate é simples e incômoda: todas as abordagens psicológicas operam, de fato, segundo critérios científicos?

A psicologia nasce com a ambição de compreender o humano, mas muitos tratam o sintoma, e não a raiz do problema, mas rapidamente se fragmenta em escolas que, muitas vezes, divergem não apenas nos métodos, mas no próprio objeto de estudo. Algumas se organizam em torno de construtos não observáveis, acessíveis majoritariamente pela interpretação clínica; outras se apoiam na observação, na experimentação e na análise de relações funcionais entre variáveis. Ambas se autodenominam científicas, mas será que atendem aos mesmos critérios de cientificidade?

Se considerarmos princípios básicos da ciência, como observação sistemática, possibilidade de refutação, replicabilidade e mensuração de efeitos, é inevitável questionar o estatuto científico de abordagens que dependem fortemente da interpretação do terapeuta e cuja validação ocorre majoritariamente dentro do próprio sistema teórico que as sustenta. Quando uma explicação não pode ser testada, contestada ou falsificada sem ser reinterpretada, estamos diante de ciência ou de um sistema hermenêutico fechado?

Por outro lado, abordagens fundamentadas na análise do comportamento e em modelos baseados em evidência frequentemente são acusadas de reducionismo, como se a exigência de critérios empíricos empobrecesse a compreensão do humano. Mas desde quando rigor metodológico é sinônimo de simplificação? Não seria, ao contrário, uma exigência ética oferecer intervenções cujos efeitos possam ser avaliados para além da narrativa clínica?

Talvez o ponto mais sensível dessa discussão esteja no fato de que muitas escolas psicológicas se mantêm mais por filiação identitária do que por efetividade clínica comprovada. A defesa apaixonada de uma abordagem, nesse sentido, pode funcionar menos como compromisso científico e mais como resistência à revisão crítica dos próprios fundamentos.

Isso não significa negar a importância da subjetividade, da história pessoal ou do sofrimento simbólico. A questão central é outra: explicar o sofrimento é suficiente, ou a psicologia deve ser capaz de intervir de forma mensurável, responsável e passível de revisão? Se uma abordagem não admite revisão de seus próprios pressupostos à luz de evidências contrárias, em que medida ela pode ser chamada de ciência?

Fica, então, a provocação: talvez o maior desafio da psicologia contemporânea não seja integrar escolas, mas diferenciar claramente o que opera como ciência, o que funciona como modelo interpretativo e o que se sustenta principalmente por tradição. Reconhecer essa distinção não empobrece o campo ao contrário, pode ser o primeiro passo para torná-lo intelectualmente mais honesto e clinicamente mais responsável.