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COMO APRENDEMOS A OLHAR O MUNDO

A maneira como percebemos o mundo não depende apenas daquilo que nossos sentidos captam. Entre o estímulo que recebemos e o significado que atribuímos a ele existe um processo de interpretação influenciado por nossa história, nossa personalidade e, principalmente, pelo contexto cultural no qual estamos inseridos.

E quando o assunto é o padrão de beleza atribuído à mulher, ha alguns pontos a serem analisados

Sensação e percepção

É importante inicialmente diferenciar sensação de percepção.

A sensação está relacionada à captação dos estímulos pelos órgãos dos sentidos. Ao observar uma mulher, por exemplo, a visão capta características como formas, cores, proporções, cabelo, pele, roupas e outros elementos visuais.

A percepção, entretanto, acontece quando essas informações são organizadas e interpretadas, recebendo significado.

Assim, duas pessoas podem observar a mesma mulher e realizar interpretações diferentes sobre sua aparência.

Uma pode considerá-la bonita; outra pode não considerar. Uma pode associar determinada característica à elegância; outra pode interpretá-la de maneira diferente.

Isso demonstra que ver não é necessariamente perceber da mesma maneira.

A influência da cultura

A cultura participa diretamente desse processo porque aprendemos socialmente determinados valores, referências e significados.

Quando uma sociedade estabelece determinados atributos como desejáveis para a aparência feminina, esses padrões podem influenciar a forma como as pessoas percebem e avaliam os corpos.

Características como corpo magro ou curvilíneo, cabelos lisos ou naturais, pele clara ou escura, juventude, altura ou determinadas formas de vestir podem adquirir diferentes significados dependendo do contexto histórico e cultural.

O que é considerado belo não é uma percepção completamente isolada do indivíduo. A percepção é influenciada pelas experiências e referências disponíveis no ambiente social.

A mídia, a publicidade, a família, os grupos sociais e, atualmente, as redes sociais participam dessa construção de significados.

Cultura e personalidade

A cultura também participa da constituição da personalidade.

Desde o desenvolvimento inicial, o indivíduo estabelece relações e aprende formas de comportamento, valores, expectativas e maneiras de interpretar o mundo.

Isso não significa que a cultura determine completamente a personalidade. Cada sujeito também possui características individuais, experiências próprias e maneiras singulares de elaborar aquilo que vivencia.

Por isso, podemos pensar em uma relação dinâmica:

Cultura  - oferece referências e significados.

Experiências - ajudam a construir a história individual.

Personalidade - organiza maneiras particulares de sentir, pensar e agir.

Percepção - interpreta a realidade a partir dessa interação.

O padrão de beleza como exemplo

Uma mulher que cresce em um ambiente no qual determinado tipo físico é constantemente apresentado como ideal pode aprender a associar esse padrão à beleza, aceitação e valorização social.

Essa aprendizagem pode influenciar não apenas a maneira como ela percebe outras mulheres, mas também a maneira como percebe o próprio corpo.

É possível, então, que uma característica física objetiva produza diferentes significados psicológicos.

O corpo é percebido pelos sentidos, mas o significado atribuído a esse corpo é construído também pela experiência.

Por isso, uma questão importante é: Quando considero alguém bonito, estou apenas percebendo o que vejo ou também estou reproduzindo aquilo que aprendi que deveria considerar bonito?

Essa pergunta permite compreender que nossa percepção não é totalmente neutra.

A personalidade também interfere

Além da cultura, a personalidade e a história individual participam da maneira como interpretamos aquilo que percebemos.

Uma mesma experiência pode produzir respostas diferentes em pessoas diferentes.

Uma pessoa pode ser mais influenciada pela aprovação social; outra pode apresentar maior autonomia em relação aos padrões culturais; outra pode desenvolver insegurança diante da própria aparência a partir de experiências anteriores.

Portanto, não existe uma relação mecânica em que cultura simplesmente determina a personalidade ou a percepção.

Existe uma interação entre indivíduo, história e contexto sociocultural.

Pensar sobre cultura, personalidade e percepção nos leva a questionar aquilo que muitas vezes consideramos natural.

O padrão de beleza é um exemplo significativo porque mostra que não apenas enxergamos características físicas: atribuímos significados a elas.

A sensação nos permite captar o estímulo.

A percepção organiza e interpreta aquilo que foi captado.

A personalidade participa da maneira particular como cada sujeito se relaciona com essa experiência.

E a cultura fornece muitos dos significados que aprendemos a utilizar para interpretar o mundo.

Assim, compreender esses fenômenos é também desenvolver uma postura mais crítica diante das nossas próprias percepções.

A pergunta que fica para discussão é: Quantas das nossas percepções são realmente nossas e quantas foram construídas pelos valores, padrões e significados da cultura em que aprendemos a viver?