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Do divã para as telas virtuais

Emergindo do silêncio eloquente da histeria na Viena fin de siècle, a psicanálise consolidou-se como o "terceiro ferimento narcísico" da humanidade ao destronar o eu de sua própria morada, revelando, através da escuta clínica de Sigmund Freud, um inconsciente pulsante regido por uma gramática de desejos e traumas que subverte a lógica da consciência. Se em sua gênese ela rompeu com o mecanicismo biológico para instaurar a soberania da palavra e da sexualidade infantil na formação da subjetividade, na contemporaneidade ela se transmuta em um ato de resistência ética contra a aceleração algorítmica e a espetacularização do eu nas redes sociais, onde a imagem idealizada e o imperativo da felicidade constante mascaram o desamparo constituinte.

Hoje, o divã clássico expande-se para novas cartografias do sofrimento, onde as neuroses de repressão dão lugar às angústias do vazio existencial e ao esgotamento pelo exibicionismo digital; assim, a psicanálise reafirma sua vitalidade ao oferecer ao sujeito hiperconectado a possibilidade de resgatar sua singularidade histórica e sustentar a dignidade de sua própria falta, funcionando como uma âncora de subjetividade em um mundo marcado pela efemeridade e pelo apagamento do desejo em nome da métrica de engajamento.

Elaine Vieira