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Na Prática - Reflexão sobre os princípios da imagem pessoal no caso proposto

O caso apresentado envolve uma criança que, após ser abandonada ao nascer, foi acolhida em um orfanato e posteriormente adotada, ocasião em que teve seu nome alterado de Renato para Cristian. Do ponto de vista psicanalítico, essa mudança não é apenas formal, mas atinge diretamente a constituição da identidade. Conforme afirma Françoise Dolto, o prenome está profundamente ligado ao corpo e à relação com o outro desde o nascimento, sendo um dos primeiros significantes que estruturam a imagem corporal e a própria existência psíquica do sujeito.

Ao longo de seu desenvolvimento, a criança apresentou dificuldades na linguagem escrita, um comportamento repetitivo ao utilizar a letra “R” em seus desenhos e também incontinência esfincteriana, que foi posteriormente resolvida com o acompanhamento terapêutico. Sob essa perspectiva, tanto a repetição da letra quanto o sintoma corporal podem ser compreendidos como formas de expressão de um conflito psíquico não simbolizado. A letra “R” remete ao nome original, “Renato”, indicando a permanência desse significante no inconsciente. Já o sintoma esfincteriano pode ser entendido como uma manifestação no corpo de uma dificuldade de organização psíquica e de controle, frequentemente associada, na psicanálise, a conflitos ligados à constituição do eu e às primeiras relações com o outro.

A troca do prenome, nesse contexto, pode ter provocado uma ruptura na continuidade psíquica da criança, uma vez que, segundo Dolto, o nome acompanha o sujeito desde o nascimento como marca fundamental de sua relação com o outro e de sua inserção na linguagem. A melhora da incontinência ao longo do tratamento indica um avanço no processo de simbolização, sugerindo que, à medida que a criança pôde elaborar aspectos de sua história e de sua identidade, houve também uma reorganização no plano corporal.

A tentativa inicial de interpretação direta por parte da analista não produziu efeitos, possivelmente por não acessar a dimensão inconsciente do conflito. No entanto, ao utilizar uma intervenção simbólica — chamando pelo nome “Renato” de forma indireta —, a analista possibilitou que a criança entrasse em contato com essa inscrição psíquica primária. A reação intensa observada evidencia a força desse significante, que permanece ativo mesmo após sua supressão na vida consciente.

Dessa forma, o caso ilustra a importância do prenome na constituição subjetiva, indicando que sua substituição pode gerar efeitos significativos quando não é simbolizada. Aquilo que não encontra lugar na linguagem retorna sob a forma de sintoma, seja no comportamento, na linguagem ou no próprio corpo, revelando a permanência do vínculo entre nome, corpo e identidade.