Ficção - Livro A Amável Linguagem de Roberto Melo
Citação de Luiz Roberto Sousa melo em junho 23, 2026, 12:45 am*A Amável Linguagem (Capítulo 14 manuscrito)*
_O DIVÃ DE MERCÚRIO_
O banheiro fedia a ele mesmo. Ferrugem escorria de seus óculos. Eram 3h17 da manhã. Ele não dormia há quarenta e uma horas. O espelho vagabundo, trincado em forma de raio, lembrava Mercúrio — o deus gay, falastrão e fofoqueiro.
Deitou-se ali o paciente. O paciente era ele mesmo. O rosto molhado de suor e restos de batom tingia de vermelho a sopa que escorria fria pelo pescoço daquele pobre diabo. Ele não se reconhecia no reflexo, mas sabia que já havia se visto em algum lugar.
— Boa noite — disse para o espelho. — Podemos começar essa palhaçada?
Sentou na tampa da privada, o analista. O analista era ele mesmo. O paciente se colocou de pé, descalço no azulejo gelado, tremia até a ponta do pênis, encarando o vidro e percebendo o raio. O analista puxou o caderno belo. A caneta falhou duas vezes.
— Não quero falar — disse o paciente. — Quero cantar. É mais avançado.
— Ótimo — respondeu o analista. — O canto distrai e aumenta a alegria. Qual é o novo hit?
O reflexo do paciente não respondeu. A fenda do Mercúrio cortava sua sobrancelha ao meio.
Um só olho!
Uma voz repetia sem parar.
Um só olho!E outra voz perguntava: O que o olho vê?
— Putz, o cara é louco mesmo! — sussurrou o analista.
Ele tentou explicar: as vozes eram suas amigas.
O banheiro fedeu ainda mais.O analista mentiu sobre o lance, disse que ouvir vozes que não existem era melhor que não ouvir nada. O analista sabia que ele era um energúmeno, porém não quis dizer abertamente.
— Fale da sua mãe.
— Minha mãe é o cinema.— Agora essa! — disse o analista, e continuou:
— Cuidado — metáfora é a resistência de quem tem medo da realidade.Silêncio.
Deu para ouvir pássaros da noite gargalharem.
O analista então interveio:
— Ei, fique à vontade. Não quis te preocupar.O paciente cuspiu duas luas de catarro na pia azul.
— Você não sabe de porra nenhuma! Você trancou meu lego numa tela de "não apropriado".
— Hahaha! Você quis dizer ego? — se divertia o analista.
— Quando eu pedi fogo, você disse: isso pode te foder!
Ah... vai ver se estou na esquina, seu merda de psicólogo!— Psicanalista, eu sou um psicanalista, caralho!
Ambos se olharam um pouco mais.
O analista ficou em silêncio junto com ele próprio. Se tocando. Pela primeira vez na vida, ficou mudo e cheio de tesão. O paciente, ali, tinha falado a verdade, e dizer a verdade sempre traz o início de uma orgia. A contratransferência seria como porra quente na garganta.
Mas... comer o paciente, não seria antiético? Pensou sem anotar nada.
— Foda-se! O pau não lê livro de teoria.Segundo silêncio, esse ainda mais humilhante.
Não havia de fato nenhuma palavra livre.A caneta caiu e rolou até dentro do box, a alma já estava peladinha.
Não houve catarse além do venenoso dentro da pia.
Não houve abraço, além dos dedos que corriam entre os botões da blusa.
Não houve insight iluminado, além do relâmpago do deus metido a besta.O analista, depois de se aliviar, se levantou de si, deu descarga só para ouvir o barulho e encarou o reflexo do energúmeno uma última vez.
— Mas que merda é essa?
Terceiro e último silêncio.
A tragédia era exatamente o choro do chuveiro no chão do box, tudo ali cheirava a framboesa velha.
— A sessão acabou, meu bem — disse, com Amável Linguagem. — Você me deve cinquenta minutos. Duzentos é o preço.
Um dos dedos apagou a luz.
O escuro engoliu os dois.
*A Amável Linguagem (Capítulo 14 manuscrito)*
_O DIVÃ DE MERCÚRIO_
O banheiro fedia a ele mesmo. Ferrugem escorria de seus óculos. Eram 3h17 da manhã. Ele não dormia há quarenta e uma horas. O espelho vagabundo, trincado em forma de raio, lembrava Mercúrio — o deus gay, falastrão e fofoqueiro.
Deitou-se ali o paciente. O paciente era ele mesmo. O rosto molhado de suor e restos de batom tingia de vermelho a sopa que escorria fria pelo pescoço daquele pobre diabo. Ele não se reconhecia no reflexo, mas sabia que já havia se visto em algum lugar.
— Boa noite — disse para o espelho. — Podemos começar essa palhaçada?
Sentou na tampa da privada, o analista. O analista era ele mesmo. O paciente se colocou de pé, descalço no azulejo gelado, tremia até a ponta do pênis, encarando o vidro e percebendo o raio. O analista puxou o caderno belo. A caneta falhou duas vezes.
— Não quero falar — disse o paciente. — Quero cantar. É mais avançado.
— Ótimo — respondeu o analista. — O canto distrai e aumenta a alegria. Qual é o novo hit?
O reflexo do paciente não respondeu. A fenda do Mercúrio cortava sua sobrancelha ao meio.
Um só olho!
Uma voz repetia sem parar.
Um só olho!
E outra voz perguntava: O que o olho vê?
— Putz, o cara é louco mesmo! — sussurrou o analista.
Ele tentou explicar: as vozes eram suas amigas.
O banheiro fedeu ainda mais.
O analista mentiu sobre o lance, disse que ouvir vozes que não existem era melhor que não ouvir nada. O analista sabia que ele era um energúmeno, porém não quis dizer abertamente.
— Fale da sua mãe.
— Minha mãe é o cinema.
— Agora essa! — disse o analista, e continuou:
— Cuidado — metáfora é a resistência de quem tem medo da realidade.
Silêncio.
Deu para ouvir pássaros da noite gargalharem.
O analista então interveio:
— Ei, fique à vontade. Não quis te preocupar.
O paciente cuspiu duas luas de catarro na pia azul.
— Você não sabe de porra nenhuma! Você trancou meu lego numa tela de "não apropriado".
— Hahaha! Você quis dizer ego? — se divertia o analista.
— Quando eu pedi fogo, você disse: isso pode te foder!
Ah... vai ver se estou na esquina, seu merda de psicólogo!
— Psicanalista, eu sou um psicanalista, caralho!
Ambos se olharam um pouco mais.
O analista ficou em silêncio junto com ele próprio. Se tocando. Pela primeira vez na vida, ficou mudo e cheio de tesão. O paciente, ali, tinha falado a verdade, e dizer a verdade sempre traz o início de uma orgia. A contratransferência seria como porra quente na garganta.
Mas... comer o paciente, não seria antiético? Pensou sem anotar nada.
— Foda-se! O pau não lê livro de teoria.
Segundo silêncio, esse ainda mais humilhante.
Não havia de fato nenhuma palavra livre.
A caneta caiu e rolou até dentro do box, a alma já estava peladinha.
Não houve catarse além do venenoso dentro da pia.
Não houve abraço, além dos dedos que corriam entre os botões da blusa.
Não houve insight iluminado, além do relâmpago do deus metido a besta.
O analista, depois de se aliviar, se levantou de si, deu descarga só para ouvir o barulho e encarou o reflexo do energúmeno uma última vez.
— Mas que merda é essa?
Terceiro e último silêncio.
A tragédia era exatamente o choro do chuveiro no chão do box, tudo ali cheirava a framboesa velha.
— A sessão acabou, meu bem — disse, com Amável Linguagem. — Você me deve cinquenta minutos. Duzentos é o preço.
Um dos dedos apagou a luz.
O escuro engoliu os dois.
